Os instrumentos musicais chineses
Na edição nº2 (março de 2020) da revista de o Instituto Confúcio escrevi um artigo sobre o antigo sistema de classificação instrumental da música chinesa, conhecido como Bayin 八音, literalmente, os "oitos sons". Segue a íntegra abaixo.
Instrumentos Musicais Chineses
os oitos tons da música chinesa
por André Ribeiro
Estima-se que haja para mais de 600 mil variedades de instrumentos musicais étnicos em uso na China, muito dos quais absorvidos de outras culturas. Seja muito, eles estão classificados no antigo sistema Bayin (八音), também conhecido como “sistema dos oito sons” — o primeiro e mais antigo esforço de sistematização sonora da música, e que remonta a época dos Zhou (1027-771 a.c), quando foi mencionado pela primeira vez no Livro dos Documentos, Shang Shu (尚書): “os oito tipos diferentes de instrumentos musicais podem ser ajustados para que um não interfira em outro; e espíritos e homens são trazidos à harmonia”. (尚書, Livro I, cânone de Shun, cap. 5)
São oito categorias instrumentais de acordo com a matéria prima ressonante envolvida na construção dos instrumentos, sendo estas: metal pedra, pele, cabaça, bambu, madeira, seda e argila. Cada um destes materiais, sendo um produto da natureza, está vinculado a uma época e a uma estação do ano. Não apenas isso, mas os sons que eles carregam em seu interior, as frequências sonoras que se pode manifestar desses oito tipos de materiais fez com os chineses antigos considerassem a criação dos instrumentos chineses como fruto de uma ecologia do som.
Para além da sazonalidade, quando a natureza oferece estes produtos em abundância, encontra-se ainda uma filosofia baseada no reconhecimento das propriedades sonoras dos materiais envolvidos na construção dos instrumentos. Assim, o músico da antiguidade pelo material saberia dizer na maioria das vezes a que categoria sonora um instrumento novo, ou absorvido de uma outra cultura, poderia estar vinculado — e ainda tinha uma imagem razoavelmente precisa de como ele soaria aos seus ouvidos.
O sistema dos oitos sons é também uma forma de situar a geração dos instrumentos — que assim como a história não cessa de se transformar — em um rol de princípios naturais considerados permanentes. Embora na natureza tudo se transforme, de tempos em tempos se apresentam os mesmos frutos e resultados. E os sons que escutamos através dos instrumentos são os seus testemunhos — é como se ouvíssemos a própria natureza.
Os oitos sons
Metal
A primeira categoria é o metal. Nela se encontram os sinos, pratos e gongos. O sino Bianzhong (編鐘) é o grande destaque. Trata-se de um carrilhão de doze sinos de bronze, afinados de acordo com a escala cromática de 12 sons, em uso na música cerimonial desde a Dinastia Shang, séc. 16 antes de Cristo. Em 1978, durante a escavação arqueológica realizada na tumba do Marquês Yi, do antigo estado de Zeng (província de Hubei, século 5 ac.), foi recuperado um conjunto de 65 sinos de bronze muito bem preservados. Hoje eles fazem parte da coleção do Museu de Hubei — e estão classificados como parte dos tesouros nacionais proibidos de serem exibidos no exterior. Os sinos Bianzhong são um exemplar único da metalurgia na Era do Bronze. Em vista de seu formato em lente (semelhante aos olhos humanos) um único sino possui duas notas musicais: se tocado ao centro ressoa uma nota, ao lado, outra. O conhecimento de acústica e manufatura para alcançar tal resultado é impressionante! Desde a sua redescoberta ele foi tocado apenas três vezes, a última durante a cerimônia de reunificação de Hong Kong, em 1997.

Pedra
Instrumentos de pedra eram comuns na antiguidade. Sua manufatura, por vezes, é bastante sofisticada. No geral, são instrumentos de percussão como, por exemplo, os carrilhões de jade mencionados na literatura antiga como Bianqing (编磬). Trata-se de um conjunto de pedra plana em forma de ‘L’ que é tocado melodicamente. Frequente nas cerimônias confucionistas o Bianqing é solene e tem a virtude de evocar a lembrança daqueles que perderam suas vidas em defesa da nação, como nos conta algumas passagens do Livro dos Documentos.

Pele
A categoria dos instrumentos de pele abarca diversos tambores, desde os pequenos tamborins de dupla face, por exemplo, o Bolang Gu (波浪鼓), até os grandes tambores rituais usados nas cerimônias budistas e confucionistas, o Dagu (大鼓). Dentre os diversos usos dados aos tambores algumas funções musicais são comuns, tais como, marcar os passos de uma procissão ou cortejo, abrir e encerrar cerimônias, reforçar sentimentos, conduzir enredos operísticos ao clímax, ou, simplesmente, anunciar as horas do dia, como em alguns monastérios budistas. Os tambores perpassam toda cultura folclórica chinesa. São ainda presentes nas óperas, danças regionais, e representam o carro-chefe de um estilo regional do nordeste da China, bastante conhecido por combinar conjuntos de percussão com instrumentos de sopro.

// Tangu, acervo MetMuseum
Cabaça
Na antiguidade as cabaças eram associadas aos poderes medicinais, aos elixires, poções mágicas e vinhos sagrados, como também serviam de amuleto. Aliás, sua forma lembra o número 8, muito estimado na cultura geral. Além do que, a palavra em chinês para “cabaça”, Hulu (葫芦), tem a mesma pronúncia que a palavra “proteger” (hu 护), e também a palavra “bênção” (hu 祜). Vai daí outras associações auspiciosas: em alguns dialetos hu (葫) tem uma pronúncia semelhante a fu (福), que significa "felicidade" ou "boa sorte". Portanto, a palavra cabaça soaria semelhante a Fulu (福禄), significando “felicidade e boa classificação”, isto é, “como alcançar um alto cargo no governo”. É por essas simbologias e pronúncias aproximadas com outras palavras que se tornou comum na antiguidade vê-las penduradas nas costas de pessoas velhas, expressando “longevidade”. Por todas essas e outras significações as cabaças possuem um elevado status simbólico.
Dos instrumentos feitos de cabaça conhecemos ao menos dois de uso mais frequente: o órgão de boca Sheng (笙) e a flauta de cabaça Hulusi (葫蘆絲). O primeiro é milenar, enquanto o segundo é recentíssimo.
O Sheng (笙) trata-se de um pequeno órgão de boca, originalmente feito a partir de 13 tubos de bambu inseridos verticalmente numa cabaça. Lembra e muito a sonoridade dos grandes órgão de igreja, embora em uma escala reduzida. Foi muito utilizado, e até hoje, nas cerimônias confucionistas e taoístas. O personagem responsável por sua invenção é nada mais nada menos que Huangdi, o lendário Imperador Amarelo. Vai daí que este pequeno instrumento tem uma mitologia própria, marcada pelo simbolismo de seu design, já que a disposição de seus tubos (inicialmente, seis de cada lado em torno de um tubo central) reproduz visualmente a imagem de um pássaro de asas fechadas. O seu timbre é estável e firme, possui algo de um brilho metalizado pela inserção das palhetas no interior dos tubos. É comum na ópera chinesa e nos grupos folclóricos de percussão e sopros do nordeste da China. Com a modernidade ele ganhou novas versões que vão dos modelos menores aos maiores, com acréscimos de tubos que vão até 53.

// Tony Lee ao Sheng. Foto tirada durante o curso Seda e Bambu no SESC-CPF, jan 2020.
A flauta de cabaça Hulusi ou Hulusheng (葫芦丝 ou 葫芦笙) visualmente dá a impressão de ser uma mistura entre a flauta de bambu e o Sheng, como se umas das penas da Fênix se encontrasse espetada numa cabaça. Construído em três segmentos de bambu (um tubo central e dois laterais menores em comprimento e diâmetro), assim como o Sheng, possui palhetas internas que torna o seu timbre bastante responsivo. Por isso alguns estudiosos preferem chamar esse tipo de instrumento de flauta de cabaça. Embora sua origens sejam frequentemente associadas às culturas étnicas Dai e Yi, originárias de Yunnan, foi somente no final da década de cinquenta que ele surgiu, inicialmente com apenas um tubo, e logo após com dois tubos laterais menores acrescentados. E desde então alcançou uma popularidade incrível, com intérpretes regionais, e uma produção em escala global.

// Hulusi, Juliana Wu. Foto tirada durante o curso Seda e Bambu no SESC-CPF, jan 2020.
Madeira
Os instrumentos tradicionais reunidos na categoria da madeira são todos muito antigos e de uso exclusivo nas cerimônias religiosas. Três deles são representativos: o Zhu (柷) uma caixa de madeira semelhante a um cachepô, que é percutida nas bordas internas com uma vareta de bambu; o Yu (敔) uma peça de madeira esculpida na forma de um tigre com as costas serrilhadas, que é tocado com um maço de varetas de bambu amarradas; e o Muyu (木鱼), um instrumento esculpido na forma de um peixe, que é percutido na cabeça ou raspado no dorso, também serrilhado como Yu. Muitos desses instrumentos foram desenvolvidos para cumprir papéis cerimoniais ou religiosos e, conforme elas mudaram, passaram a ser usados na cultura popular.

// Muyi "Peixe de madeira". Foto Ensemble Gaoshan Liushui, SESC Pompéia, 2013.
Bambu
De todas as categorias a do bambu é certamente a mais expressiva, pois vem preenchida de lendas e símbolos da antiguidade. As flautas são suaves modulações do canto extraordinário da Fênix, um pássaro mitológico muito cultuado na antiguidade, cujo canto o Imperador Amarelo procurou capturar em sua teoria musical ilustrada através da fabricação do órgão de boca Sheng. Diz a lenda que tendo enviado um de seus dignitários, de nome Ling Lun, a uma área montanhosa, na região ocidental da China, para colher uma espécie rara de bambu, cujas propriedades sonoras se aproximavam do canto da Fênix, Huangdi teria patrocinado o primeiro diapasão da história da China. Isto quer dizer que as flautas representam um papel central nas antigas teorias musicais, fixando as frequências sonoras padrão para todos os demais instrumentos.
Contudo, a representatividade simbólica do bambu transcende a música. Sua cultura conta com 7.000 anos de história; algo que por si só confere ao bambu uma aura de longevidade superior aos outros materiais neste sistema. É talvez por essa razão que o bambu venha a ser frequentemente relacionado com resiliência e firmeza de caráter em face das adversidades.
A cultura do bambu também impulsionou o artesanato especializado, e muito do que se tem nas narrativas em torno dos artefatos reproduz a sofisticação do seu próprio manuseio. É assim, por exemplo, que a lenda de Huangdi foi recontada muitas vezes sob a luz da modernização da música chinesa no século XX, servindo de referência para narrativas semelhantes atribuídas às outras flautas, como por exemplo o Bawu. Em suma, diz-se que as flautas quando bem construídas representam as emoções mais profundas e indizíveis. E nesta categoria encontramos pelo menos cinco delas, a saber, o Dizi, Xiao, Bawu, Guanzi e Suona.
O Dizi (笛子) é uma flauta transversal que tem um de seus furos recoberto por uma membrana vibratória finíssima, feita a partir do revestimento interno de Taboa (uma planta aquática, família das Tifáceas, comuns em brejos e manguezais). Quando o intérprete toca a membrana vibra na passagem do ar, resultando numa cor sonora metalizada de muita projeção. Foi muito popular a partir da dinastia Tang (618-906), e posteriormente Ming (1368-1644), tornando-se o principal instrumento nas óperas regionais e conjuntos instrumentais. É um instrumento bastante amigável para iniciação musical e muito requisitado nas orquestras chinesas. Tradicionalmente, ele é feito de uma única peça de bambu. Mas com o avanço das orquestras chinesas durante o século XX, e a necessidade de alcançar uma afinação equilibrada com os demais instrumentos, na década de 1920, o músico Zheng Jinwen (1872-1935) inseriu uma junta de cobre para conectar dois pedaços de bambu mais curtos, garantido assim o ajuste da afinação do instrumento.

// Cíntia Harumi ao dizi. Foto Ensemble Gaoshan Liushui
O Xiao (箫) é uma flauta vertical longa, feita de uma única peça de bambu roxo. Ela possui uma sonoridade suave e aveludada, própria para a interpretação de peças clássicas. As pinturas chinesas geralmente retratam os flautistas tocando à sombra de uma árvore ou à beira de um lago em dia de lua cheia. É frequentemente usada em combinação com outro instrumento igualmente ancestral: a cítara de sete cordas Guqin. Sendo tão antiga quanto a teoria musical de Huangdi, afirma-se que no passado ela era feita da mesma espécie de bambu que o Imperador Amarelo encomendou a Ling Lun. Por esta ancestralidade toda e simbolismo exige do intérprete um pouco mais de paciência e esforço no aprendizado. Nada que um pouco de persistência não resolva.

// Xiao. acervo do Metropolitam Museum.
O Bawu (巴乌) é uma flauta transversal envolta numa história de amor, uma língua cortada e um pássaro mágico. A lenda diz que dois jovens amantes foram separados por um espírito maligno, que na tentativa de cortejar a moça foi por ela recusado, provando assim a força do voto de fidelidade. O espírito inconformado, num rompante arrancou fora a língua da moça, condenando-a a vagar perdida pela floresta montanhosa de Aialao, ao sul do rio vermelho (Hong He) na província de Yunnan. Mas logo surge um pássaro mágico carregando a língua inserida num pedaço de bambu, e pede que ela sopre no tubo. Dia após dia, ela sopra a flauta e produz assim belíssimas melodias que ressoam pela floresta, até que um dia seu amante escuta e a encontra. A lenda é ilustrativa: reúnem-se nela a natureza “pura” do amor, a mãe natureza (a floresta), um pássaro mágico, o bambu como objeto de expressão dos sentimentos internos e indizíveis. Assim como o Hulusi não se sabe a origem exata dessa flauta, isso sim, apenas que ela surge na mesma época, tornando-se mais um dos instrumentos recentes da China. E neste sentido é provável que a narrativa folclórica seja inspirada na lenda de Huangdi.
O Guanzi (管子) é o pólo oposto diante das flautas mencionadas acima. Ele assemelha-se a uma flauta vertical curta, no entanto, com uma palheta dupla que se projeta em uma de suas extremidades, por onde o intérprete canaliza o sopro. O timbre é firme e de volume alto, e muitos aspectos lembra o oboé ocidental. De uso militar na Dinastia Zhou, o Guanzi era considerado um instrumento bárbaro, em parte devido a sua origem ao nordeste da China. Na antiguidade era usado quase como um apito para sinalizar os movimentos da tropa. A partir da Dinastia Tang, com o surgimento da rota da seda, ele foi incorporado aos rituais da corte. Contudo, teve uma presença curta neste âmbito, logo passando a integrar os conjuntos folclóricos e a ópera Beijing, onde ainda hoje ele é usado para representar cenas militares.

// Guanzi, Yale Collection of Musical Instruments
Assim como Guanzi, o Suona (唢呐) é uma espécie de oboé chinês com corpo de cobre e uma palheta vibratório interna ao tubo. Em sonoridade, quase lembra uma gaita de fole sem o fole, o mesmo timbre forte e penetrante. Acredita-se que ele tenha vindo da Arábia pela Rota de Seda, aproximadamente durante o século três da Era Cristã. Mas foi somente a partir da dinastia Ming (1368-1644) que ele se tornou conhecido, integrando o estilo de música instrumental já mencionado do Nordeste da China, que combina percussão com sopros, voltado às músicas festivas, às procissões e ritos taoístas, casamentos e funerais. Em parte, devido às suas origens no Oriente Médio e sua rápida ascensão durante o século XX, passando a integrar as orquestras estatais do pós-guerra, carecemos de narrativas folclóricas a seu respeito. Hoje, trata-se de um instrumento reinventado para funcionar dentro das orquestras chinesas.

// Suona, acervo do Metropolitam Museum.
Seda
A seda é outra categoria de grande importância no Bayin. Sendo o principal commodities da antiguidade chinesa a seda chegou a ser moeda corrente entre os mercadores da Rota da Seda, da Dinastia Song do Norte (960-1127 CE) e Song do Sul (1127-1276 CE) até os imperadores Liao e Jin. De grande valor material ela era também símbolo de prestígio e refinamento. Quem vestia seda no passado em geral tinha uma status social elevado e uma educação superior mais do que privilegiada.
Neste contexto os instrumentos de corda de mais alto valor na cultura chinesa antiga tinham suas cordas de seda, como o Guqin. Em parte sabe-se que as sedas possuem uma resistência material semelhante ao aço, refletindo uma gama de valores morais que vão da retidão, contenção ao refinamento das paixões. Entretanto, o que cativou durante séculos os antepassados eram os sons que a seda produzia após passar pelo longo e complexo processo de manufatura. Alguns mestres de Guqin afirmam que os sons extraídos das cordas de seda são a própria energia celeste brotando do instrumento. Para confirmá-lo este célebre poema de Xunzi sobre os casulos da seda: “Aqui está uma coisa:/quão nua e desprotegida sua forma exterior,/no entanto, continuamente sujeita-se a transformação espiritual, tal como o espírito./“Sua conquista cobre as costas do mundo.”
Três classes instrumentais da seda
Sendo o toque da seda tão importante, os instrumentos nessa categoria estão organizados em três classes de acordo com a maneira com que cada um deles é tocado, a saber, cordas pinçadas, friccionadas e percutidas. As cordas pinçadas reúne guitarras, alaúdes e cítaras. As cordas friccionadas os instrumentos de arco, tais como o violino chinês Erhu. Às cordas percutidas é reservada a cítara de martelo Yangqin. Cada uma dessas categorias engloba instrumentos de origem e manufatura diversas.
Apesar desses significados profundos, poucos desses instrumentos atualmente utilizam cordas de seda. De um lado devido ao alto valor dos cordoamentos de seda, e por outro, devido ao volume sonoro baixo de caráter intimista que as sedas produzem — no mundo moderno, onde o silêncio é cada vez mais raro, o volume das sedas não atendem muito bem as demandas atuais de palco.
Cordas pinçadas
No topo da lista fica a cítara de sete cordas Guqin (古琴). Sabe-se que essa cítara existe desde a dinastia Shang (aprox 16 séculos antes de Cristo). E bastou Confúcio tocá-lo, e dizer umas poucas palavras a seu respeito, para que fosse imortalizada. Desde então é parte da história da China. Em 2003 foi declarado patrimônio intangível da humanidade pela Unesco, sendo que uma de suas peças musicais “águas correntes” foi o único exemplar da música chinesa a embarcar na sonda Voyager em 1977, gravada no famoso Golden Disk - uma espécie de cápsula do tempo intergaláctica com imagens e sons da vida na Terra. Tudo isso já o torna algo inestimável. O Guqin, ao longo de sua longa história, tem sido o instrumento musical mais valorizado pelos eruditos da China. Eles o categorizaram como uma de suas “quatro artes” (四藝 Sì yì), o colecionaram como um objeto de arte, elogiaram a beleza de sua música e construíram em torno dele uma ideologia complexa. Nenhum outro instrumento foi descrito e ilustrado com tanto detalhe, tantas vezes retratado em pinturas, ou tão regularmente mencionado na poesia.

// Guiqin, Prince Lu, acervo do Metropolitam Museum
Igualmente ancestral, a cítara Guzheng (古箏) é extremamente popular na China. Registros históricos apontam o seu inventor como sendo Meng Tian, um general da Dinastia Qing (221-206 ac.), que foi um dos responsáveis pela construção da Grande Muralha. De tampo arredondado que serve de caixa de ressonância para as cordas, o guzheng tem a peculiaridade de ter suas pontes ou suportes móveis para as cordas, de maneira que o intérprete pode customizar a afinação da música de acordo com a peça a ser tocada. Usualmente, o instrumentista usa unhas postiças para tocá-la. Há basicamente dois estilos principais de tocar, referidos ao Norte e ao Sul da China. Sua construção passou por uma reformulação em 1920, tanto em tamanho como em quantidade de cordas — ao todo 21 delas —, alcançando a partir daí uma popularidade assombrosa. Sem dúvida é um dos instrumentos mais bem difundidos na cultura chinesa atual, encontrado até mesmo nas bandas de pop e rock que utilizam este instrumento ao lado de teclados e guitarras elétricas.

Além das cítaras, a categoria das cordas reúne também as guitarras e alaúdes. Dentre eles destaca-se o Pipa (琵琶), um alaúde com corpo em forma de pêra com quatro cordas. Sua história é longa e repleta de referências na literatura e pintura. Foi muito cultivado ao longo da história da China, e alcançou seu ponto máximo de prestígio dentro da corte dos Tang, entre os séculos VII e X, tornando-se o instrumento preferido da elite palaciana. Embora haja referências históricas ligadas a Dinastia Qing, (século II antes de Cristo), sua origem ainda hoje é controversa. Alguns pesquisadores acreditam que o pipa moderno foi desenvolvido a partir de um alaúde semelhante de origem indiana ou iraniana. Contudo, prevalece o sentimento de que esse alaúde seja de origem chinesa, dada a longevidade das citações encontradas em diversos documentos históricos.

// Alaúde Pipa, acervo do Metropolitam Museum.
A certa altura, com o retorno do confucionismo durante os Ming, a desconfiança em relação as pressupostas origens estrangeiras do pipa fizeram com o que o uso do instrumento fosse abolido dentro das cortes, passando assim a integrar conjuntos folclóricos populares. O instrumento é tão representativo dessa ligação entre as cortes e as culturas populares que já serviu de elemento para diversos enredos de ópera e até mesmo histórias de fantasmas. A música para Pipa está dividida em dois estilos de repertórios essenciais, chamados música civil e militar. No primeiro encontram-se diversas canções e músicas instrumentais de caráter dramático e linhas melódicas nostálgicas, enquanto no segundo abundam músicas que narram grandes batalhas, e que fazem uso de efeitos sonoros para além das simples usos de notas musicais e melodias.
Popularmente conhecido como ‘guitarra da lua’, o Zhongruan (中阮) pertence à família instrumental ruan (阮), sendo este o modelo ‘médio’ (zhong 中). Há ainda os modelos gaoyinruan (高音阮), xiaoruan (小阮), daruan (大阮) e diyinruan (低音阮), respectivamente, soprano, alto, baixo e contrabaixo. Acredita-se que essa guitarra tenha sido criada a partir de um instrumento chamado xiantao (弦 鼗) — este por sua vez, construído por trabalhadores da Grande Muralha da China durante o final da dinastia Qin (221-206 ac.) usando cordas esticadas sobre um tambor ou cabaça. Até a dinastia Tang (618-907 dc.) ele era conhecido como Qin pipa, por semelhança ao alaúde de nome pipa. Foi a partir da abertura de uma tumba, que o instrumento foi associado com um célebre personagem da história da China: Ruan Xian (阮咸). Trata-se de um dos “Sete Sábios do Bosque de Bambu” (竹 林七贤) que viveram no século 3 durante a dinastia Jin (266-420 dc.) dos Três Reinos do Leste (三國東晉). Reza a lenda, Ruan Xian amava esse instrumento, e por conta da conta da simplicidade com o qual ele e seus amigos levavam a vida, cultivando as artes, de Qin Pipa foi rebatizado para Ruan. De lá cá, o instrumento passou por inúmeras transformações, e hoje é frequentemente usado nas orquestras chinesas em grandes naipes.

// Zhongruan, Ensemble Gaoshan Liushui.
O Sanxian (三弦) é um dos instrumentos de cordas mais tradicionais da China, passado de geração em geração. Era muito popular quando foi levado para o Japão, resultando na criação dos shamisen. Conforme o seu nome indica, o instrumento possui san (três 三) xian (cordas 弦). Embora um dos instrumentos mais destacados, integrando diversos gêneros e estilos musicais, a sua história antiga foi pouco documentada. Em parte porque o Sanxian na antiguidade não possuía um nome próprio e muito menos um design padrão. E assim, como outros instrumentos da antiguidade, ele era designado sob o nome genérico de qin pipa ou qin hanzi - levando em conta ainda que o seu nome mudava em cada região da China por que ele passava. A menção mais antiga a seu nome só veio a tona em um texto da Dinastia Ming.

// Sanxian, acervo do Metropolitam Museum.
Não muito diferente de outros instrumentos chineses, o sanxian também foi reinventado no século XX para atender às necessidades da orquestra moderna chinesa. Antes disso ele era usado como acompanhamento nas canções narrativas (Quyi 曲艺) ou “contação cantada de estórias”) um gênero musical bem difundido na China. Hoje é composto de três partes: uma caixa de ressonância recoberta por uma pele de cobra, um braço longo e fino que se estende até as três tarrachas de madeira para afinação. Se no passado o Sanxian acompanhava as canções narrativas, com sua introdução nas orquestras peças solo foram compostas para ele, no geral, de grande virtuosismo.
Cordas friccionadas
O grupo das cordas friccionadas por arcos é marcado pela presença dos Huqin (胡琴), também conhecidos como os violinos chineses. Dentre eles se destaca o Erhu (二胡), sendo um dos instrumentos mais populares na atualidade. Acredita-se que o Erhu tenha vindo da Mongólia pelas rotas comerciais durante a Dinastia Tang, integrando os conjuntos de dança e ópera palaciana. Por isso entende-se que o caractere (胡) quer dizer “instrumento dos povos bárbaros”. Em termos de sonoridade o Erhu se aproxima da viola de orquestra ocidental. Muitos intérpretes considerados mestres neste instrumento eram autodidatas como o caso de Abing (1893-1950), um monge taoísta cego que compôs as melodias mais famosas do repertório. Com o avanço da modernidade, e a necessidade de uma orquestra chinesa que fizesse frente às européias, o Erhu foi elevado à categoria erudita por Liu Tianhua (1895,1932), enquanto instrumento orquestral, e hoje é um dos instrumentos mais presentes na cena artística asiática. Graças a Liu Tianhua o Erhu floresceu no início do século XX como um repertório forte e bastante modernizado.

// Alfredo Rezende ao Erhu, Ensemble Gaoshan Liushui.
Cordas percurtidas
Um dos instrumentos mais recentes na história da China é a cítara de martelo Yangqin (揚琴). Há três versões sobre sua origem. A primeira diz que a cítara entrou na China pela Rota da Seda, durante a Dinastia Ming, percorrendo um longo percurso desde a Mongólia até o litoral de Xangai. A segunda, afirma que sua entrada foi pelo mar de Guangdong em meados do século 16 com os navegadores portugueses. E uma terceira contesta as demais, afirmando que ele teria sido simplesmente inventado por não se sabe quem. No primeiro caso ele é um primo distante da cítara iraniana o Santur. No segundo, um parente do Saltério português.
As teorias e especulações se multiplicaram ao longo do tempo já que essa cítara é presente em muitas culturas. Sabemos apenas que o sentido original de seus caracteres 洋琴 refere-se a uma “cítara estrangeira”, rebatizada mais tarde para 揚琴 significando “instrumento aclamado”, reforçando assim as teorias de que ele teria vindo de fora da China. Afora essas curiosidades, o Yangqin está ligado ao desenvolvimento da música no Sul da China entre Xangai e Hong Kong, sendo muito popular nos grupos de câmara folclóricos que fazem parte do estilo Seda e Bambu. É também um instrumento importante nas orquestras modernas chinesas, fazendo o meio de campo entre as guitarras, alaúdes e as flautas e violinos chineses.

// Nelson Lin ao Yangqin, Ensemble Gaoshan Liushui.
Argila
Por fim a última categoria. Ela é representada pela ocarina Xun (埙). As ocarinas chinesas pertencem a classe dos artefatos pré históricos, tendo sido encontradas em escavações arqueológicas ocarinas como mais de 7.000 anos. Ela é feita de cerâmica, argila ou pedra. Tradicionalmente a sua forma de ovo é comparada a ovos de dragão, cuja simbologia é bastante rica. No entanto, essa ocarina já passou por inúmeros formatos, do oval, esférico as formas de peixe. Hoje em dia a matéria prima de fabricação varia entre argila, pedra, osso, marfim, porcelana e plástico. Foi muito utilizado nos rituais e cerimônias confucionistas. A literatura antiga menciona o caráter melancólico do Xun, enquanto símbolo de recolhimento, da tristeza feminina, do declínio dos heróis. Um exemplo recente dessa simbologia do Xun está na série chinesa “O Retorno da Fênix”, no Netflix, onde a protagonista aparece diversas vezes tocando a ocarina, esboçando o gesto final da despedida.

// Ocarina Xun, acervo do Metropolitam Museum.
Dada a longevidade e o esforço monumental dos antigos chineses em elaborar um sistema completo que abrangesse toda a gama instrumental da música, na atualidade muitos instrumentos desafiam essa classificação — e sendo assim muitas outras propostas surgiram para tentar substituí-lo. No entanto, o Bayin segue ainda como um monumento da antiguidade, complexo, e como todo patrimônio da antiguidade, é insubstituível.
Andre Ribeiro (set, 2019, revisão mar, 2020)